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NASCIMENTO DO ENRICO PELO RELATO DE PARTO DA JEISA TARTARI

Relato do meu parto domiciliar!!!

“ Se você conseguiu, toda mulher pode conseguir também.” Lembro quando uma amiga me disse essa frase, em 2010, pouco depois do nascimento do meu primeiro filho, nascido de um parto normal. A “surpresa” por eu ter conseguido parir devia-se ao fato de frases como “parto normal é desumano”, “Deus me livre ter parto normal” e várias outras frases desse tipo que eu dizia quando conversávamos sobre nascimento. Na época, eu não pensava que engravidaria em breve e que isso aconteceria enquanto estivesse morando na Inglaterra, país referência em parto normal. No entanto foi o que aconteceu e com o incentivo do meu marido me dizendo frases como “a natureza é perfeita e seu corpo foi feito pra isso“ usei os meses da minha gestação pra absorver o máximo de informação possível. Quanto mais me informava, menos medo sentia. A vontade de parir surgiu e cresceu tanto que comecei a cogitar um parto domiciliar e em cada consulta de pré natal que ia, as parteiras me orientavam e estimulavam a respeito do home birth. No entanto, algumas questões acabaram nos impossibilitando de levar esta opção em frente e optamos pelo parto hospitalar. Em 25/08/10 nasceu João, de um lindo parto hospitalar na Inglaterra, natural, humanizado e acompanhado por parteiras.

Em 2015, novamente na Inglaterra, engravidei pela segunda vez, porém agora meu bebê iria nascer no Brasil. Ao chegar aqui, com 22 semanas de gestação, meu médico já não tinha mais disponibilidade para minha data de parto e me sugeriu o parto domiciliar. Opa!!! Boa ideia. Ao entrar em contato com o grupo de parto domiciliar, um balde de água fria: também não tinham mais disponibilidade para minha DPP. Me vi perdida e com medo, pois sabia como as coisas funcionavam aqui no Brasil e o quão difícil é encontrar profissionais que atuam conforme minhas escolhas para o nascimento dos meus filhos. Por sorte encontrei uma médica que trabalha na linha de conduta que acredito e acolheu meus desejos. Em 05/05/2016 nasceu Violeta de um lindo parto hospitalar no Brasil, natural, humanizado e acompanhado por obstetra.

Em 2017, uma semana após minha filha completar um ano, descubro que estou grávida novamente. Lembro que ao ver as duas listrinhas no palito dois pensamentos imediatamente vieram em minha cabeça: “puta que pariu“ e “esse bebê vai nascer em casa”. Eu ainda não tinha feito ecografia ou consultado com meu médico, mas imaginava que a data de parto devia ser em algum dia de janeiro e tinha certeza que nasceria em nosso lar, então, já no dia seguinte da descoberta mandei mensagem para as meninas do grupo de parto domiciliar pra garantir o meu espaço na agenda delas em janeiro. Na semana seguinte houve um encontro com um casal dando o relato da experiência deles de parto em casa e, acompanhada da minha melhor amiga Larissa, fui para escutar e conhecer as meninas pessoalmente e saber mais sobre o trabalho delas. Eu já não tinha dúvidas, mas a partir daquele momento passou a ser óbvio que havia feito a melhor escolha. Ao longo da gestação fui em alguns outros relatos, acompanhada do meu marido, mãe e dos meus outros dois filhos. Achava importante que as pessoas que estariam comigo entendessem e partilhassem da minha escolha. O ano passou voando assim como minha gestação. Quando percebi, já estávamos em 2018 e o Enrico poderia chegar a qualquer momento.
Na madrugada do dia 05/01 tive várias contrações. Eram indolores e incômodas, mas não engrenou. Eu estava com quase 39 semanas e vinha sentindo alguns desconfortos há umas duas semanas, mas não dava muita atenção pra não ficar ansiosa. Durante a tarde, ainda no dia 05, fui com a Larissa comprar algumas coisas para o meu chá de bençãos, que seria no dia seguinte. Batemos perna e de tempos em tempos tínhamos que parar por conta de contrações que eu sentia. Continuavam sendo sem dor, mas causavam desconforto. Já de noite, organizei e decorei a casa para o chá e as 23 horas me deitei. As 3 da manhã acordei com um choque na barriga acompanhado de uma contração bastante dolorida. Eu já conhecia aquilo. No parto da Violeta foi exatamente igual e este é o sinal que meu corpo dá quando minha bolsa se rompe. Era a hora. Fui ao banheiro, nenhuma gota de água escorreu, mas eu sabia que a bolsa havia rompido. Meu coração estava acelerado, me senti agitada e ansiosa, mas não queria essa sensação. Parei, me olhei no espelho, respirei fundo algumas vezes e conversei comigo, me disse palavras de encorajamento e apoio que me trouxeram tranquilidade e pude me concentrar. Só notei a contração seguinte 18 minutos depois. Pensei que estavam muito espaçadas e que poderia ser demorado, mas logo espantei esse pensamento, pois não era nisso que queria me focar, e substituí pelo mantra que havia feito durante toda a gestação: entrego, confio, aceito e agradeço. 10 minutos para a contração seguinte. 7 minutos para outra. 5 minutos e outra. 3 minutos e mais uma. Decidi acordar o marido e avisar a equipe, pois acelerou bem rápido. Liguei pra minha Doula Larissa (não basta ser melhor amiga há 22 anos e ser comadre por 4 vezes, tem que fazer curso de Doula e acompanhar o parto da amiga) e meu marido ligou pra minha mãe. Então, liguei pra Cibele, a enfermeira obstétrica que iria me atender: “Cibele, a bolsa rompeu mas não sei se já vale a pena você vim. Peraí um pouquinho que tá vindo uma contração... aaahhhhhhhh. Passou! Então, to pensando em entrar no banho e aí te ligo quando sair pra dizer como tá a evolução! Peraí que veio outra... aaaaaahhhhhhh. Passou! Então, elas estão vindo a cada dois minutos, são bem doloridas, mas suportáveis. Peraí... aaaahhhhhhhh... “ do outro lado da linha ela contava o tempo das contrações e decidiu vim naquele momento, pois estavam a cada 2 minutos. Por último, liguei para a Marcinha, que iria fotografar o parto. Equipe chamada, hora de relaxar e curtir.
Entrei no banho com a bola de pilates e logo chegou a Larissa. Nos abraçamos e choramos juntas. Uma amizade de outra dimensão, já vivemos tantas histórias juntas e agora ela estava ali, pra cuidar de mim no momento mais importante da minha vida. Aquilo era muito emocionante. Chegou minha mãe, que também veio me abraçar e também choramos. Assim como eu, ela tinha muito medo de parto normal, mas mudou sua visão vendo minhas experiências e agora estava ali comigo, me apoiando num parto domiciliar. Nossa, quanto amor eu sentia.. Eu estava no meu ninho com quem mais amo. Me sentia segura e protegida. No banho, a cada contração eu respirava fundo, fechava os olhos, vocalizava e pensava numa flor se abrindo. Imaginava meu corpo, minha pelve se abrindo igual uma flor. As contrações eram longas, fortes e seguidas, mas eu conseguia conversar e pensar entre uma e outra. Por fim, chegou a Cibele. Ouviu os batimentos do bebe enquanto eu estava no chuveiro e me disse que, quando eu me sentisse a vontade, podia sair do banho para ela me avaliar. Tomei coragem e levantei, sabia que quando saísse do chuveiro a coisa ia apertar ainda mais. E assim foi. Sai da bola e já me ajoelhei no vaso com ânsia de vômito de tão forte que a contração estava. Fiz mais umas ânsias, mas como não vomitei, saí do vaso e fui pra cama.A partir daí, tudo mudou e os momentos aparecem em flashs sem ordens na minha memória. Me apoiei com as mãos na cama e fiquei em pé. Não conseguia me deitar. Uma contração, vocalizo alto. Outra contração, Larissa massageando a lombar. Outra contração, minha mãe me abraça e diz que sou foda. Outra contração, eu grito que sou foda e que vou conseguir. Contração e sinto necessidade de fazer força. Faço xixi ali mesmo. Uma, duas, três contrações sem espaço de tempo entre elas. Eu me sinto um bicho (literalmente tenho essa sensação de me sentir um animal irracional). Eu faço sons que vem de dentro da alma, de dentro do útero, já não sei quem eu sou mas lembro de estar gostando de fazer gemidos e urros que surgem da parte mais primitiva de mim. Eu estava na minha casa, posso fazer o que quiser sem me importar com nada. Eu queria ser bicho, eu era bicho, eu estava entregue. Não sei se alguém me sugeriu ou se eu resolvi por conta mas, enfim consegui deitar na cama. Vem a contração, a vontade de fazer força e sinto o bebê descer. Quando acaba a contração, sinto o bebê subir. Faço um toque e não consigo sentir a cabeça. “Ele tá alto ainda.” Achei que tinha pensado, mas com certeza eu falei isto, pois escuto respostas: “não, ele tá aí, só mais umas contrações e nasce! “ Alguém acorda o João e o traz pra ver o irmão nascer. Pode ter sido na contração seguinte, pode ter demorado mais algumas, mas em certo momento, olho a minha volta e sinto o amor maior do mundo. Ao meu redor está meu marido segurando minha mão e dizendo como eu estava indo bem.Minha mãe fazendo carinho em minha cabeça, me dando total apoio. Minha melhor amiga Lara segurando minha perna e minha mão e elogiando minha força. Meu filho abraçando a minha barriga e rindo, vendo aquilo com tranquilidade. Vi também minha parteira Cibele a postos, apenas assistindo e minha fotógrafa Marcinha registrando tudo sem eu perceber que ela estava ali. E foi no meio deste círculo de amor, rodeada pelas pessoas que escolhi para estarem comigo neste momento, que senti a última contração e a vontade de fazer força. E no meio desse transe escutei a voz da Lara me dizendo: pega amiga, teu filho tá aí! Voltei para esse mundo e nele havia o melhor presente que existe: meu filho! Em 06/01/2018, dia de todos os reis, nasceu Enrico, que significa o rei do lar, de um lindo parto domiciliar, natural, humanizado e acompanhado por enfermeira obstétrica.

Ao todo, o trabalho de parto durou menos de 2 horas. Enrico nasceria em casa de qualquer forma, pois eu não chegaria a tempo no hospital e isso me mostra quanto a minha escolha foi perfeita. O irmão mais velho, encantando com o nascimento do caçula, aguardou ansiosamente a saída da placenta para poder, enfim, cortar o cordão!

Obrigada meus amores, Thiago, mãe, Lara, João e Violeta, por estarem comigo neste momento! Vocês são minha base e meu ninho só é completo com vocês dentro dele!

Obrigada as meninas do Quatro Apoios e a Marcinha.
Vocês estão entre as melhores escolhas que fiz na vida!!

E você que está lendo este relato até aqui, e o que leu te faz sentido, coloco-me a disposição para conversar a respeito do parto domiciliar e compartilhar minha experiência com mais detalhes, desde o pré natal até o pós parto. Me procure!!! E acredite: se eu consegui, você também pode conseguir!

Jeisa, Thiago, João e Violeta

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