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Relato sobre o dia que nascemos


Dia 05 de outubro de 2015 nascemos, eu, mãe, Dafner, pai e Theo, filho. Nascemos em
casa, no conforto e intimidade do nosso refúgio. Nascemos com muita tranquilidade,
intensidade e amor. Nascemos na hora que decidimos nascer, da forma que quisemos
nascer.
Porém, o parto não começou e terminou neste mesmo dia. Nosso parto começou há alguns
anos atrás, quando decidimos nos unir e formar uma família. Desde lá sabíamos que
seríamos protagonistas do nosso parto. Ainda não conhecíamos a possibilidade de parir em
casa, mas já desejávamos um parto amoroso e respeitoso.
Quando entramos em contato com o parto domiciliar assistido, através da nossa querida
cumadre, Xênia Mello, não tivemos dúvidas, teríamos o nosso filhote no aconchego do lar,
se a gestação fosse tranquila e de baixo risco.
Engravidamos em janeiro deste ano, mas ainda tudo parecia tão longe que o parto ainda era
um pouco assustador. Parir em casa significa trazer para nós mais responsabilidade pelo
parto. Mais fácil seria parir no hospital, mas indo lá perderíamos algo que valorizamos, que
é poder curtir esse evento singular e íntimo com o máximo de autonomia, protagonismo e
intimidade.
Durante toda a gestação buscamos conversar e nos certificar de que esta era uma escolha
coerente com o que nós somos e nos tornamos nos últimos anos. Buscamos informação.
Buscamos tranquilizar amigos e parentes, que, na melhor das intensões, temiam por nossa
escolha. Neste caminho fizemos um curso sobre parto natural e protagonismo na Casa de
Parto Ativo, com a querida psicóloga Thalia. Neste caminho conhecemos outros casais que
também valorizam esse tipo de protagonismo. Durante a gestação pudemos criar e idealizar
o parto nas nossas mentes. Pudemos trabalhar com alguns medos e realizar algumas
frustrações que por ventura poderiam acontecer. E foi um período mágico, em que pudemos
ir nos descobrindo futuros mãe e pai.
Ainda em março deste ano confirmamos com o antigo grupo Luar a nossa decisão de
sermos assistidos no parto domiciliar por eles. Não conhecíamos muito bem as pessoas que
compunham o grupo, mas já tínhamos muita confiança no trabalho deles diante dos relatos
que ouvíamos de amigos.
Na terceira semana de setembro começamos o acompanhamento com o novo grupo,
estávamos de 36 semanas. Neste primeiro encontro conhecemos todos os integrantes do
grupo, conversamos sobre a gestação, um pouco sobre nós e ouvimos um pouco da história
do grupo e da forma de atuação. Fomos perguntados sobre as nossas expectativas em
relação à atuação do grupo. Para nós o grupo serviria principalmente de apoio técnico para
avaliação de risco durante o parto. Era para isso que precisávamos deles. Precisávamos de
uma avaliação profissional da situação fisiológica do parto. Precisávamos estar seguros
para continuar ou não os procedimentos em casa. Acreditamos que o grupo todo ficou
contente com o que esperávamos deles, afinal, é exatamente este o trabalho que se dispõem
a fazer. Se engana quem acha que o grupo é quem vai fazer o parto. Não é. Quem faz o
parto é a mulher, com o auxílio de quem ela quiser. O grupo acompanha e faz avaliações do
estado da parturiente e do estado do bebê.
Contudo, recebemos muito mais do que o esperado destas quatro pessoas maravilhosas que
nos guiaram pelos caminhos do parto domiciliar. Recebemos apoio emocional e
psicológico. Recebemos carinho e amor. Recebemos cuidado e tratamento dócil.
Recebemos também uma linda pintura do bebê na barriga, a chamada ecografia ecológica.
Teríamos mais 4 encontros antes da data provável do parto, que era dia 12 de outubro.
Contudo, o Theo resolveu não esperar, e com 38 semanas e 6 dias entrei em trabalho de
parto. Era uma segunda feira relativamente quente. Já havia sentido algumas contrações na
sexta-feira que seguiram durante o final de semana. No domingo mesmo eu já sabia que
pariríamos ainda aquela semana.
Eram 5 horas da manhã quando senti a primeira leve cólica. Desconfiei, e como já estava
acordada resolvi tomar café da manhã, o que foi ótimo porque depois de entrar em trabalho
de parto ativo não consegui ingerir mais nada. As contrações começaram efetivamente as 6
e meia da manhã, e cerca de 7 e meia já estavam regulares (de 5 em 5 minutos e durando
mais de 1 minuto e meio). Decidimos esperar até as 9 horas para montar a cena do parto e
ligar para as pessoas, dado que o trabalho pode regredir e não queríamos ficar ansiosos ou
criar expectativas, como fomos orientados pelo grupo.
As 9 horas ligamos para o grupo, para a doula Helenice e para a minha mãe, a Noeli. As 10
horas a Aline, enfermeira obstétrica do grupo, chegou e fez a primeira avaliação. Eu já
estava com 4 centímetro de dilatação e ela nos disse que acreditava que não demoraría
muito para termos o Theo nos braços, dado a evolução do parto. Fiquei aconchegada no
nosso quarto durante todo o início do trabalho de parto, acompanhado do Dafner e da Doula
Helenice. Permaneci nos quatro apoios durante todo o processo. Era a única posição
possível em que me sentia mais confortável. Também tive a necessidade de soltar toda a
dor que sentia pela boca. Ou seja, eu gritava e urrava muito a cada contração. Em vários
momentos pensei que não teria conseguido passar pelo processo se não fosse desta forma:
livre e no aconchego que só sua própria casa lhe dá. Livre nos movimentos, livre nos gestos
e livre nas escolhas. Escolher quem poderá participar, onde você quer ficar, como quer
ficar, qual o som quer ou não ouvir, a temperatura, a luz, é tudo muito importante para um
parto tranquilo. Estava com muita necessidade de me recolher em um local seguro, escuro e
quieto. E assim foi.
Cerca de meio dia e meia entrei na fase expulsiva do parto, quando a dilatação jé está
completa e o bebê começa a descer. Neste momento resolvemos ir para a banheira. A
mudança de ambiente e o calor da água ajudaram a tranquilizar, dado que neste momento as
contrações já estavam fortíssimas. Informamos o grupo que o nascimento estava próximo e
logo chegaram os enfermeiros Fábio e Sibele, para acompanhar a evolução do parto.
Ficamos ali na banheira, eu e o Dafner, até as 14:44 quando nasceu o Theo. Momento
único. Depois de cerca de 8 horas de trabalho de parto conhecemos nosso filhote. Lindo e
perfeito! Nasceu e já foi para os braços do pai e em seguida da mãe. Ficou conosco todo o
tempo. Mamou. Nos conheceu e reconheceu antes de qualquer intervenção externa.
Privilégio de um parto respeitoso. Logo depois chegou a enfermeira Carol para auxiliar nos
procedimentos e orientações pós-parto.
Se eu puder definir o nosso nascimento em algumas palavras elas serão protagonismo e
respeito. Protagonismo nosso e respeito da equipe.
Queridos do grupo quatro apoio, vocês são pessoas muito especiais, que escolheram dar
suporte para as famílias vivenciarem seguramente esse momento único; e para tal, são
cheios de uma coragem admirável, pois precisam enfrentar um sistema completamente
contrário às suas práticas. Obrigada por existirem! Eu, o Dafner e o Theo os teremos com
muito amor para sempre!"
Com muito carinho sempre!
Bjocas.
Jeniffer B. Scheffer

Jeniffer, Dafner e o Theo

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